MULHER
       Mavi Lamas
 
Hoje pensei muito na minha condição de mulher.
Entre uns e outros, em todas as nuances.
Mulher é coisa complexa, incompleta,
Felizmente, sempre a se fazer. Alguém dirá o homem também.
O incessante tornar-se, que enfrenta a gente feminina
È também quinhão dos machos. Claro.
Mas desde que perdemos a primeira batalha
E, quando aceitamos por nossa culpa, permanecer
Na caverna e guardar as crianças
Em vez de de continuar "saindo " caçar com os homens
Fomos obrigadas a assumir uma história linear.
Histórias de personagens que esperam,
Que esperam um homem,o seu homem
Que amam com um amor único, mulher bicho monogâmico,
biológicamente monogâmico, socialmente monogâmico,
 Penélope eterna, levada a enganar no jogo.
A história não registra, a versão masculina de Penélope.
 
Dirão: e Jacó e seus quatorze anos de serviço a Labão
Por uma Raquel que não possuia os  olhos remelosos de Lia ?
Jacó é a excessão que confirma a regra, enquanto Penélopes somos todas nós.
Só que, em que pensava Penélope enquanto tecia
E destecia os fios do seu bordado, de sua vida?
Que outras vidas vivia enquanto seu corpo imóvel
Só denunciava o movimento subterrâneo do existir, pelo agir dos dedos?
Imagino: Penélope lisongeada com o interesse
E o cerco de pretendentes a sua mão e a seu corpo
Lugar de provocação, descobrindo seu poder de sedução
sobre eles e os caminhos que este saber abria nela própria.
Sua sedução: movimento ilusóriamente amante.
Sonhava com amores possíveis nos rostos que a cortejavam.
Talvez vivendo em imaginação esses amores
Assumindo outros desejos,que não os de Ulisses
O ardiloso Ulisses,desconfiado, fingidor,
Provável assassino do bebê Astyanax,
Que até o fino Sócrates chamou-o de mentiroso.
Ulisses que escutou o canto de Circe e afogou no corpo da feiticeira
A lembrança da esposa tecedora.
 
Imagino Penélope feliz com a demora de Ulisses
Ansiosa que durasse um pouco mais
Era bom se sentir requestada,
Bom dizer um não, a um homem(mesmo que o sonho dissesse
e se efetivasse no espaço
dela somente e que nenhum Ulisses poderia atingir e dominar)
Ulisses marido,tranquilizado pela consciência de uma fidelidade
Só corpo  - ignorante de que a fidelidade mais fácil e banal
Que a verdadeira vida, já dizia o outro
Está em outra parte.
 
Imagino-a lavando o corpo do marido ainda marcado pelo corpo de Circe,
Enquanto ouvia o relato de suas aventuras,seus amores
Tão mais extraordinários e reais, passados naquele lugar
de nós que nenhuma censura se processa.
Ulisses trazia no corpo, traços da morte, e seu cortejos
De metamorfoses,enganos, mentiras, desejos de sobrepujar
E demolir o outro, de prevalecer, exterminar.
Voltava para casa e encontrava
um corpo vivo,não uma imagem
Mas uma exigencia de vida, corpo que lhe dizia assim:
Vivo, sou assim, te quero assim,entre meus eus e por causa deles.
Como Penélope, sou várias e uma. E levei quarenta anos para chegar a isto
Incapaz de realizar com todo o adquirido,
Essa cultura feita de experiências,
Síntese de que lhe daria talvez
A chave do conhecimento e da aceitação do mundo de Penélope
Tão mais aventureiro que o de Ulisses.
 
 


 

Créditos Top Dégradés

 Jpg da net

Tutorial de Terez@ Christ

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Versão - Angela*Poesi@


 
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